Por Redação Agronegócio Notícias
14 de agosto de 2026
O El Niño de 2026 poderá se tornar o mais intenso da série histórica iniciada em 1950. A projeção aumenta a necessidade de monitoramento dos riscos para o agronegócio de Goiás, especialmente durante o plantio da safra 2026/27.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) calcula em 69% a probabilidade de o fenômeno superar a intensidade dos El Niños anteriores durante o trimestre formado por outubro, novembro e dezembro de 2026.
Para que esse cenário histórico se confirme, o Índice Oceânico Niño Relativo (RONI) precisará atingir ou superar 2,5 °C na média trimestral.
A NOAA também aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul.
Isso não significa que Goiás necessariamente terá seca generalizada ou que todas as lavouras enfrentarão perdas. O Centro-Oeste não apresenta uma relação uniforme com o El Niño, e os efeitos podem variar conforme a região, a época do ano e a interação com outros sistemas climáticos.
O El Niño já é o mais intenso desde 1950?
Não.
A informação correta é que existe 69% de probabilidade de o evento se tornar o mais intenso desde 1950 entre outubro e dezembro de 2026.
O boletim da NOAA divulgado em 13 de agosto informa que o fenômeno está se fortalecendo. No trimestre maio, junho e julho, o RONI observado estava em aproximadamente 1 °C.
A projeção de um índice igual ou superior a 2,5 °C refere-se aos próximos meses. Portanto, o possível recorde ainda não foi observado.
| Indicador | Situação em 14 de agosto de 2026 |
|---|---|
| El Niño está presente? | Sim |
| Fenômeno está se fortalecendo? | Sim |
| Chance de ser muito forte | Superior a 90% |
| Chance de superar os eventos desde 1950 | 69% |
| Período de maior atenção | Outubro a dezembro de 2026 |
| Persistência estimada | Até pelo menos o início de 2027 |
| Recorde já foi confirmado? | Não |
A informação foi confirmada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), que publicou nesta sexta-feira, 14 de agosto, a atualização da NOAA sobre a possibilidade de um evento histórico.
El Niño muito forte e recorde histórico não são a mesma previsão
Existem duas probabilidades diferentes no boletim e elas não devem ser confundidas.
A primeira indica chance superior a 90% de o El Niño atingir a categoria muito forte nos próximos trimestres.
A segunda aponta 69% de probabilidade de o evento ultrapassar a intensidade dos episódios anteriores da série iniciada em 1950.
Um El Niño pode ser classificado como muito forte sem necessariamente estabelecer um novo recorde.
Também não é tecnicamente recomendado usar a expressão “super El Niño” como classificação oficial. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) utiliza as categorias fraco, moderado, forte e muito forte.
Por que o agronegócio de Goiás deve acompanhar o fenômeno?
Goiás inicia a preparação da safra 2026/27 depois de uma temporada marcada por queda de 15,6% na produtividade média dos grãos e redução estimada de 4,24 milhões de toneladas na produção.
O novo ciclo climático poderá coincidir com três momentos importantes:
- Final do período seco e preparação do solo;
- Retorno das chuvas e plantio da soja;
- Desenvolvimento inicial das lavouras durante a primavera e o verão.
O principal risco não é apenas a quantidade total de chuva. A distribuição da precipitação ao longo dos dias será determinante.
Um município pode terminar o mês com volume próximo da média, mas enfrentar um período prolongado sem chuva justamente durante a germinação, a emergência ou o desenvolvimento inicial das plantas.
Goiás não responde ao El Niño de forma uniforme
Uma nota técnica elaborada por INPE, INMET, Funceme e Censipam destaca que o Centro-Oeste não possui uma correlação elevada e uniforme com episódios de El Niño ou La Niña.
Isso significa que não existe uma regra simples segundo a qual El Niño sempre provoca seca ou excesso de chuva em todo o estado.
Os órgãos oficiais identificam, porém, alguns sinais que merecem atenção:
- Tendência de temperaturas mais elevadas em Goiás, principalmente na primavera e no verão;
- Possibilidade de condições mais secas durante a primavera, entre setembro e dezembro;
- Maior risco de baixa umidade e queimadas no final do inverno e início da primavera;
- Possibilidade de chuvas mais regulares no verão e no outono em parte de Goiás;
- Maior irregularidade na frequência e distribuição das chuvas no norte do Centro-Oeste.
Esses cenários não são contraditórios. Goiás pode enfrentar calor e irregularidade das chuvas durante o início do plantio e, posteriormente, receber volumes mais regulares em determinadas regiões durante o verão.
Os principais riscos para o agronegócio de Goiás
1. Atraso no plantio da soja
A implantação da soja depende do retorno consistente das chuvas e da recuperação da umidade do solo.
Chuvas isoladas podem estimular o início do plantio, mas não garantem água suficiente para a germinação e o estabelecimento das lavouras.
Se houver interrupção da precipitação depois da semeadura, podem ocorrer:
- Falhas na germinação;
- Emergência desuniforme;
- Necessidade de replantio;
- Redução do estande de plantas;
- Aumento do custo operacional;
- Desenvolvimento inicial mais lento.
O INMET alerta que, em partes do Centro-Oeste, a redução das chuvas e o aumento da frequência de veranicos na primavera e no início do verão podem prejudicar a implantação de culturas como soja e milho.
2. Encurtamento da janela do milho segunda safra
Um eventual atraso no plantio da soja não fica restrito à primeira safra.
Quando a soja é semeada mais tarde, sua colheita também tende a avançar no calendário. Isso pode reduzir a janela disponível para o milho segunda safra.
O milho plantado fora do período mais favorável corre maior risco de chegar às fases de florescimento e enchimento dos grãos quando a disponibilidade de chuva já está diminuindo.
Esse efeito encadeado foi observado em Goiás na safra 2025/26, quando o atraso do ciclo da soja contribuiu para a semeadura tardia do milho em algumas regiões.
Por isso, a regularidade das chuvas no início da safra 2026/27 poderá influenciar também o desempenho da segunda safra de 2027.
3. Aumento da evapotranspiração
As previsões indicam maior probabilidade de temperaturas acima da média durante o segundo semestre de 2026.
Quanto maior a temperatura, maior tende a ser a perda de água do solo e das plantas para a atmosfera, processo conhecido como evapotranspiração.
Mesmo quando há chuva, o calor intenso pode acelerar o consumo da água armazenada no solo.
Áreas com solos de menor capacidade de retenção hídrica podem perder umidade mais rapidamente, aumentando o risco de estresse para as lavouras.
4. Veranicos durante fases críticas
O veranico é um período de vários dias sem chuva dentro da estação normalmente chuvosa.
Na agricultura, o impacto depende do momento em que ele acontece. Uma interrupção das chuvas durante o desenvolvimento vegetativo pode reduzir o crescimento. Durante o florescimento e o enchimento dos grãos, pode comprometer diretamente a produtividade.
Os sistemas de produção de sequeiro, dependentes exclusivamente da chuva, estão mais expostos.
O risco não será igual em todas as regiões de Goiás. Por isso, previsões estaduais precisam ser complementadas por informações meteorológicas regionais e locais.
5. Pressão sobre pastagens e pecuária
O boletim conjunto do INMET, INPE, ANA, Cemaden, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam alerta que as temperaturas mais elevadas podem intensificar a deficiência hídrica no final do período seco no Centro-Oeste.
Entre os possíveis impactos estão:
- Redução do desenvolvimento das pastagens;
- Menor disponibilidade de água para os animais;
- Aumento da necessidade de suplementação;
- Pressão sobre reservatórios e bebedouros;
- Maior dificuldade para recuperação das pastagens no início do período chuvoso.
Na pecuária, temperatura elevada, baixa umidade e menor oferta de forragem podem elevar os custos de manejo e alimentação.
6. Maior demanda por água na irrigação
O calor aumenta a demanda hídrica das culturas e pode ampliar a necessidade de irrigação.
O risco depende do nível de rios, reservatórios, represas e fontes subterrâneas utilizadas em cada propriedade.
O monitoramento do balanço hídrico do solo será essencial para evitar decisões baseadas apenas na ocorrência de chuvas pontuais.
A disponibilidade de água também poderá influenciar o custo energético e operacional dos sistemas irrigados.
7. Queimadas e incêndios em áreas rurais
A combinação entre temperaturas elevadas, baixa umidade e vegetação seca aumenta o risco de propagação do fogo.
Os boletins oficiais indicam maior pressão sobre o Centro-Oeste durante o trimestre julho, agosto e setembro, período tradicionalmente crítico para incêndios.
O fogo pode atingir:
- Pastagens;
- Lavouras;
- Reservas legais;
- Áreas de preservação;
- Máquinas e estruturas;
- Redes elétricas;
- Cercas e depósitos;
- Animais e trabalhadores.
Além das perdas diretas, a fumaça pode reduzir a visibilidade nas estradas e prejudicar operações de transporte e colheita.
O El Niño também pode trazer condições favoráveis?
Sim.
O fenômeno não produz apenas efeitos negativos e não afeta todas as atividades da mesma maneira.
O tempo mais seco entre julho e setembro pode favorecer a colheita do milho segunda safra, do algodão e da cana-de-açúcar, reduzindo interrupções provocadas pela chuva e facilitando o tráfego de máquinas.
Em eventos fortes, observações históricas também indicam possibilidade de chuvas mais regulares durante o verão e o outono em parte de Goiás.
Se essas chuvas ocorrerem de forma bem distribuída, poderão beneficiar lavouras, pastagens e reservatórios.
O problema é que ainda não existe garantia sobre onde, quando e com qual intensidade essa precipitação ocorrerá.
Calendário de riscos para Goiás
| Período | Sinal climático que exige atenção | Atividades mais expostas |
| Agosto e setembro de 2026 | Calor, baixa umidade e deficiência hídrica | Pastagens, pecuária, reservatórios, preparação do solo e prevenção de incêndios |
| Setembro a dezembro de 2026 | Possível irregularidade ou atraso das chuvas | Plantio e estabelecimento da soja, milho primeira safra e sistemas de sequeiro |
| Outubro a dezembro de 2026 | Possível pico histórico do El Niño | Lavouras em desenvolvimento, disponibilidade hídrica e planejamento da segunda safra |
| Dezembro de 2026 a março de 2027 | Chuvas potencialmente mais regulares em parte de Goiás, mas ainda irregulares em outras áreas | Desenvolvimento da soja, pastagens, reservatórios, colheita e preparação do milho segunda safra |
| Início de 2027 | Persistência provável do El Niño | Colheita da soja, plantio do milho e definição da janela da segunda safra |
O quadro apresenta cenários de risco, e não uma previsão determinística para todos os municípios.
O que os produtores podem fazer agora?
O fortalecimento do El Niño oferece uma janela para planejamento antes do período mais crítico.
Entre as medidas que podem ser avaliadas estão:
- Acompanhar previsões meteorológicas oficiais de curto, médio e longo prazo;
- Monitorar a umidade real do solo antes da semeadura;
- Evitar decisões baseadas apenas na primeira chuva isolada;
- Revisar o planejamento da janela de plantio;
- Avaliar cultivares e ciclos com acompanhamento agronômico;
- Verificar as condições do Zoneamento Agrícola de Risco Climático;
- Revisar apólices de seguro rural;
- Planejar reservas de alimento e água para a pecuária;
- Realizar manutenção de reservatórios, bombas e sistemas de irrigação;
- Reforçar aceiros e planos de prevenção contra incêndios;
- Evitar concentrar todo o risco operacional em uma única data de plantio, quando tecnicamente possível.
As decisões devem considerar as condições específicas de cada propriedade e contar com orientação técnica.
Um El Niño mais forte sempre provoca impactos maiores?
Não necessariamente em todos os lugares.
Eventos mais fortes aumentam a probabilidade de padrões climáticos associados ao El Niño, mas não garantem que esses efeitos ocorrerão com a mesma intensidade em cada região.
Segundo a NOAA, mesmo um evento muito forte não produz automaticamente o impacto esperado em todas as localidades.
O comportamento do clima em Goiás também depende da interação do Pacífico com o Oceano Atlântico, o Oceano Índico, os sistemas atmosféricos regionais e a umidade disponível no solo.
Por isso, a intensidade global do El Niño não pode ser convertida diretamente em uma previsão de perda agrícola para Goiás.
Ainda não é possível calcular prejuízo para Goiás
Nenhum dos boletins oficiais consultados apresenta uma estimativa de perda financeira ou de redução da safra goiana provocada pelo El Niño de 2026.
Qualquer cálculo antecipado exigiria informações que ainda não existem, como:
- Distribuição real das chuvas;
- Temperaturas observadas durante o ciclo;
- Área efetivamente plantada;
- Culturas e variedades utilizadas;
- Datas de semeadura;
- Produtividade obtida em cada região;
- Preços e custos de produção.
Neste momento, é correto falar em aumento do risco climático, mas não em prejuízo confirmado.
Próxima atualização será decisiva
A NOAA informou que o próximo boletim mensal sobre o El Niño será divulgado em 10 de setembro de 2026.
A atualização permitirá verificar se a probabilidade de um evento histórico aumentou, diminuiu ou permaneceu estável.
Até lá, produtores, cooperativas, seguradoras, tradings e órgãos públicos devem acompanhar os boletins do INMET, INPE, NOAA e Organização Meteorológica Mundial.
Perguntas frequentes
O El Niño de 2026 já é o mais forte desde 1950?
Não. A NOAA calcula 69% de probabilidade de que ele se torne o mais intenso da série entre outubro e dezembro.
Qual é a chance de o evento ser muito forte?
A probabilidade indicada pela NOAA é superior a 90% nos próximos trimestres.
Qual é o principal risco para a soja em Goiás?
O risco inicial é a irregularidade das chuvas durante o plantio e o estabelecimento das lavouras, acompanhada de temperaturas elevadas e maior perda de água do solo.
O milho segunda safra também pode ser afetado?
Sim. Um atraso no plantio e na colheita da soja pode reduzir a janela disponível para o milho segunda safra de 2027.
Todo Goiás terá menos chuva?
Não é possível afirmar. Os efeitos variam dentro do estado. Há indicativos de condições mais secas na primavera, mas parte de Goiás pode receber chuvas mais regulares no verão e no outono.
O El Niño pode beneficiar alguma atividade?
Sim. O tempo mais seco pode favorecer a colheita do milho segunda safra, algodão e cana-de-açúcar. Chuvas regulares no verão também podem beneficiar determinadas regiões.
Já existe previsão de prejuízo financeiro?
Não. Existem riscos climáticos, mas ainda não há dados para calcular perdas de produção ou prejuízos em reais.
Metodologia
O Agronegócio Notícias analisou os boletins disponíveis até 14 de agosto de 2026, separando três tipos de informação:
- Condição observada: o El Niño está presente e em fortalecimento;
- Previsão probabilística: existe chance superior a 90% de um evento muito forte e probabilidade de 69% de um episódio histórico;
- Riscos potenciais: possíveis impactos baseados em previsões climáticas e no comportamento observado em eventos anteriores.
A reportagem não apresenta como certeza os impactos que ainda dependem da evolução do clima.
Fontes oficiais consultadas:
- NOAA: boletim sobre o El Niño divulgado em 13 de agosto de 2026
- INMET: El Niño pode ser o mais intenso desde 1950
- INMET: possíveis impactos do El Niño na agricultura
- Nota técnica conjunta do INPE, INMET, Funceme e Censipam
- Organização Meteorológica Mundial: El Niño forte deve se intensificar



